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Domingo, Março 14, 2004
Pessoal: lí esse texto e achei muito legal.
O dia a dia na terra das bananas & naquelas d´além mar.
[29/set/2003]
A opinião intocável
Richard Dawkins, biólogo evolucionista e notável divulgador da ciência da Universidade de Oxford, tem criticado o excessivo respeito à religião. Ele quer chamar a atenção para como a sociedade deposita uma imensa confiança nas opiniões dos religiosos, como se apenas as suas posições de liderança espirituais os tornassem dotados de uma inquestionável sapiência.
Dawkins parece especialmente incomodado com dois pontos. Primeiro, com a onipresença da opinião religiosa na mídia. De fato, forme-se na TV uma turma para debater a questão, digamos, do aborto, e certamente ela contará com um padre, ou um pastor, ou um rabino.
Segundo, com a impossibilidade de se criticar as opiniões religiosas. Você pode discordar politicamente de alguém e dizer: "Fulano, seu partido é uma porcaria". Em boa parte do mundo, não haverá problema algum com isto. Então por que você não pode dizer "Fulano, sua religião é uma porcaria", sem que isto soe agressivo? Existe - aponta Dawkins - um tabu que limita a possibilidade de criticar as religiões, como se elas fossem intocáveis. Como se apenas o esboço de uma crítica já se constituísse na intenção de um apartheid de fés, e não apenas na expressão da liberdade democrática de opinião.
Tendo a concordar com Dawkins: por que a opinião religiosa deve ser intocável? Por que suas verdades devem permanecer sem questionamentos? Deveria ser perfeitamente natural, dentro de um ambiente democrático, dizer que a política do Vaticano, quanto ao uso de preservativos na África, não só é um engano, como é irresponsável. Deveria ser natural dizer que os mitos de criação defendidos pelos fundamentalistas cristãos e islâmicos são patentemente falsos e não guardam absolutamente nenhuma analogia ou correlação com as verdades cientificamente estabelecidas. O mesmo se esperaria para com conceitos completamente sem sentido como o de "vida-após-a-morte". Deveria ser natural dizer que a defesa de um estado judeu em terras palestinas como um legado de patriarcas bíblicos, que expulsaram os cananitas guiados por Deus, é um monte de besteiras sem fundamentação histórica.
E nada disto deveria ser encarado como discriminação religiosa, anticristianismo, ou antiislamismo, ou anti-semitismo, ou restrição à liberdade de culto de ninguém. Seria apenas liberdade de expressão.
Mas pelo contrário, a tendência é se evitar este tipo de crítica direta, percorrendo desvios eufemísticos para guardar respeito para com as crenças dos outros. E aí se abre espaço para a criação de monstruosas analogias entre os mitos religiosos e verdades científicas, ou mesmo entre mitos de religiões diferentes.
Quanta besteira não ouvimos em comparações entre a narrativa do livro do Gênesis e a cosmologia moderna? Este, por sinal, é um exemplo curioso. Na tradução da cosmologia, construída em uma hermética linguagem matemática, para a linguagem corrente do cotidiano, só o que sobram são afirmações genéricas como "o universo teve um início numa grande explosão". Às vezes (mas nem sempre) de boa-fé, traça-se a analogia "explosão = ação de Deus". Ou seja, tende-se a ver a ciência corroborando o mito judaico-cristão da criação. Mas o interessante é que a cosmologia é ainda muito imatura, suas teorias ainda estão em nascedouros e as evidências experimentais ainda são muito deficientes. Como conseqüência, assim que um cosmólogo mais afoito divulga sua nova hipótese de que o universo sempre existiu e passa por períodos de expansões e contrações, imediatamente há um palpiteiro para divulgar que eram os brâmanes que estavam certos.
Também nem é necessário muito esforço para ouvir alguém defendendo que todas as religiões são manifestações de um só Deus. Os atributos são distintos, os poderes distintos, a atuação no mundo, distinta, mas não importa: é o mesmo Deus! Isto não faz o menor sentido, mas cumpre bem a função de evitar que eventos ecumênicos se transformem em curiosos debates políticos.
De qualquer modo, esta atitude respeitosa, de cabeça baixa, para com a religião é ótima para aqueles que detêm o poder religioso. O sacerdote com sua sapiência mística se embrenha por todos os meios sociais, conquistando e exercendo seu papel político, sem precisar explicar os porquês de suas opiniões, a não ser por referências tão vazias quanto genéricas a princípios morais absolutos.
João Paulo II, em sua encíclica sobre a relação entre filosofia e fé, dirige-se aos cientistas dizendo que "a busca da verdade, mesmo quando se refere a uma realidade limitada do mundo ou do homem, jamais termina; remete sempre para alguma coisa que está acima do objeto imediato dos estudos, para os interrogativos que abrem o acesso ao Mistério" (João Paulo II, Fides et Ratio, 1998.)
Ou seja, Paulo II delimita um espaço no qual a ciência tem competência para construir verdades, mas cuidadosamente reservando um perímetro para a fé, o espaço do Mistério que só é conhecido pela verdade revelada. Como a ciência não é - nem se pretende que seja - absoluta, esta divisão cria uma relação tautológica na qual a fé sempre está correta, pois mesmo quando a ciência invadir o seu perímetro, este não deixa de existir, apenas recua no horizonte do que se desconhece secularmente.
Isto dá à igreja possibilidade de manobra, principalmente se for politicamente bem planejada, como é o caso da Católica. Ao mesmo tempo em que recua em questões relativamente irrelevantes para o cotidiano público, como reconhecer erros no caso Galileu, aceitar a possibilidade de vida em outros planetas, ou aceitar a evolução das espécies como "mais do que uma hipótese", investe ampliando seu território em questões importantes na área de direitos civis e biotecnologia, atingindo mesmo aqueles que não são praticantes de sua fé.
Não sou radical como Dawkins. À mesa de debates deve estar sempre reservado o lugar não só para o religioso, mas para todos aqueles que de alguma maneira expressem os sentimentos de algum setor da sociedade sobre o assunto em questão, mesmo que sua opinião não seja cientificamente avalizada.
É fundamental para a democracia que a verdade social, ou seja, aquela que dita os padrões éticos e legais, se estabeleça mais por um debate, digamos, tribal, que por pura e exclusiva análise científica dos dados.
A ciência é parcela importante para subsidiar e orientar as decisões, mas nem seus conhecimentos são absolutos, nem os cientistas são infalíveis e isentos. Uma sociedade onde decisões fundamentais sobre, por exemplo, clonagem humana, fossem orientadas apenas pelas opiniões dos conselhos científicos, não seria o melhor dos mundos que posso imaginar. Por outro lado, se o religioso quer ter sua opinião levada em conta nas decisões políticas de uma sociedade, ele tem que aceitar a crítica sem condescendência à sua fé, como parte legítima do jogo da democracia.
(m.b.)
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Leia também no Defenestrando Idéias:
Evolução: dos criacionistas às amebas
Frijof Capra: Não li e não gostei
A Sociedade Mágica
posted by DAUBI PICCOLI 10:56 AM
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Incrédulo

Pela liberdade total de expressão e aumento da intelectualidade neste país.
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